O NEGRO NO BRASIL: OBJETO OU SUJEITO? – RESENHA

Por Moira Martins de Andrade

Sem negros não há Pernambuco”, afirmava no século XVI o Padre Antônio Vieira. E outro jesuíta, André João Antonil, escrevia, no século XVIII, no seu “Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas”: “os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente” (1).

Plínio Camillo nasceu em Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo, em 1960. Formou-se em Linguística na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. Teve diversas experiências em teatro e como educador. Já o escritor inspira-se em vivências do cotidiano e aborda temas atuais, inovando na linguagem, como em seu livro “O Namorado do Papai Ronca”, de 2012, para jovens adultos, em que utiliza expressões usadas nas redes sociais. É autor dos livros de contos “Coração Peludo” e “Bombons Sortidos”. Possui ainda sites e blogs referentes a suas publicações.

Para escrever “Outras Vozes – Contos Sobre o Negro Escravizado no Brasil” (11Editora, 2015), Camillo pesquisou durante vários anos sobre a memória da escravidão no país, em publicações e documentos oficiais, além da leitura de livros de outros autores. Durante esses estudos, encontrou frequentemente referências aos negros e negras como vítimas resignadas à violência e humilhações sofridas, valendo sempre o ponto de vista daqueles que detinham o poder político e econômico.

Como diz Zulu Araújo no prefácio, “… são vozes que … revelam parte da nossa história que teimam em esconder dos nossos livros.” E mais: “estas Outras Vozes … nos revelam … outra abordagem sobre a vida e a trajetória de povos pretos do além-mar que, mesmo trazidos para cá da forma mais desumana, ainda assim deram e têm dado uma enorme contribuição civilizatória para a construção de um país chamado Brasil.”

Segundo Lilia Moritz Schwarcs, “… estamos falando de uma nação que permitiu a existência de escravos em todo o seu território; que recebeu, por quatro longos séculos, 40% das populações africanas que conheceram o desterro nas Américas.” E ainda, “ … O texto da Lei Áurea saiu curto; apenas duas linhas: “É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário”. A lei que custará tanto a ser promulgada — e que fez do Brasil o último país a abolir esse sistema mercantil —, chegava breve e conservadora: nada de priorizar reparações aos ex-escravizados. Nada de pensar em projetos de inclusão social.” (2)

Na capa do livro, vemos  em destaque a boca de um negro ou negra semiaberta e o título e subtítulo aparecem em letras como que manuscritas. Estes cuidados indicam a intenção de caracterizar a individualidade dessas pessoas, que, retiradas de seus locais de origem e de vivência, vêm a um país estranho servir às necessidades de mão de obra na lavoura dos senhores brancos do Novo Mundo, seus donos. Eles se tornam mercadoria, objetos de uso.

Plínio Camillo quer nos mostrar um outro ponto de vista – o de pessoas, seres humanos, sujeitos. São 33 contos no total.

Irei comentar alguns deles:

No primeiro, todo dia, o narrador, num fluxo de consciência de duas páginas sem pontuação, relata o dia a dia dos escravos que acordam de madrugada para trabalhar, são mal alimentados, vão dormir às oito ou nove horas da noite, fogem e apanham. Alguns acordam mortos. Eles e elas são identificados pelo local de origem na África, como a congo, os boçais (escravos recém-chegados que ainda não falavam o português), o banto, um lesoto, ladinas (escravas adaptadas à língua portuguesa), o moçambique, a angola, além de outros/as. Eles têm saudade, alguns dançam, outros conversam, desejam o corpo de alguém, choram. É muito apropriado este discurso  contínuo, sem  início nem fim, como a existência destes indivíduos sempre igual, repetitiva e sem sentido: …todo dia quatro e meia da manhã tomam café forte e saem para a lida … só comem algo lá pelas dez horas e são empurrados para a luta contra a terra de branco…

No segundo conto, “Tumbeiro” (navio negreiro … que transportava no porão escravos da África para o Brasil, em condições precárias e desumanas, em que muitos morriam) (3), na forma de um poema cadenciado, o autor expõe os maus-tratos sofridos, o medo e a incompreensão de mulheres, homens e crianças de diferentes locais, culturas e línguas, numa espécie de babel perversa, capturados e acorrentados como animais. Eles choram, rezam, vomitam e apanham… Entremeada em diversos trechos do poema, aparece a Lenda de Iwoku, a Lua cheia, em que Aki, o menino mais baixo de todos, é levado até a Lua e lá passa uma temporada, mas, com saudade de seu povo, ganha um ilú, tambor, para distrair o pensamento, e começa a tocar. O povo sofrido do porão do navio começa, unido, a tamborilar forte e firme até que o chicote recomeçou a ecoar.

Antes do terceiro texto, “Terra”, vemos o recorte de um anúncio de jornal da época: “Aluga-se preta cozinheira”, em que Ifigênia, de 20 anos, é descrita fisicamente e por seus dotes no trabalho em torno e no interior da casa. No conto propriamente dito, há uma enumeração de nomes de escravos e do que eles faziam com a terra, da qual estavam tão próximos, conforme o que lhes sucedesse: José, banto, quando sozinho fica: ouve a terra. / Manuel, crioulo, depois de apanhar muito: bate na terra. / Zulmira, quando seus filhos são vendidos: come terra. / Mariana, da cozinha, andar fogoso e faceiro, quando disse não: varada na terra. Na verdade, eles estavam sem chão. Banzo: processo psicológico causado pela desculturação, que levava os negros africanos escravizados, transportados para terras distantes, a um estado inicial de forte excitação, seguido de ímpetos de destruição e depois de uma nostalgia profunda, que induzia à apatia, à inanição e, por vezes, à loucura ou à morte’; (3)

Em História Para Ioiô Dormir, vemos a ama de leite lidando com os sinhozinhos, enquanto é repreendida pela senhora e cobiçada pelo senhor. Para o pequeno omadê (menino) dormir, ela conta uma história de guerra entre tribos da terra dos pais dela, em que dois meninos – cada um de uma tribo – ficam amigos. Percebe-se como ela amamenta e acalenta as crianças que muitas vezes a tratam mal, apesar dos inevitáveis laços afetivos, sob os olhares controladores dos pais; ou seja, ela é obrigada a prestar serviços à família na esfera doméstica, e até íntima, convivendo ali intensamente, mas como um elemento estranho e inferior. Vê-se ainda o tratamento respeitoso e carinhoso dela com os meninos/as, quando diz Ioiô e Iaiá (Sinhô, Sinhá).

Víbora do Gabão” é a história de Madalena que nasceu sem os braços. Foi rejeitada até pela mãe, mas se desenvolveu muito bem em liberdade. Cresceu e saiu pelo mundo, trabalhou em um circo e tornou-se a Víbora do Gabão: mulher miraculosa que faz poções mágicas para atrair pessoas e é uma delícia! Teve muitas freguesas e fregueses. Trata-se de uma história difícil, em especial para uma escrava naquela época; contudo, manejando as crenças e as práticas sexuais do período, o autor nos relata um interessante episódio sobre a vida de uma mulher negra aleijada.

Em um anúncio da época, com o título Antônio e em desenho ao lado, fala-se do garimpeiro e padeiro que se tornou querido, rico e livre ao vender seus pães, pedras e doces. Em algumas poucas circunstâncias, os fatos são positivos.

Em “Vinte e Quatro Dias de Açoite”, conhecemos a história do alufá (chefe religioso muçulmano negro do noroeste da África) Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, que, ao chefiar uma revolta, é condenado a receber 1.200 chibatadas,  divididas em cinquenta por dia. É um homem forte, altivo e que, após a surra de cada dia, reza em linguagem erudita e religiosa. Ele desmaia, mas acorda, resiste. Outros escravos juntam dinheiro mais do que suficiente para pagar a dívida, mas o juiz não acata. Eles, então, assistem ao martírio. Acreditam que ele seja um santo milagreiro. Observa-se neste relato em vinte e quatro partes, muito bem composto com citações bíblicas e religiosas muçulmanas, o horror que se infligiu aos escravos negros no Brasil.

Depois da Revolta” conta a história de duas mulheres negras presas em Salvador, em 1835. Guilhermina chora de culpa por ter delatado a revolta dos escravos. Luiza não chora, entrara na luta por causa do filho e ficara comovida com a contribuição de todos para a libertação de Pacífico, seu novo homem. Ela queria dias melhores, queria um mundo não só de brancos e não só de homens brancos. O final deste conto é surpreendente!

Da Bahia Não Quero Nem Azeite de Dendê”. Este texto se apresenta em forma de poesia que cita versos e se inspira no poema ‘Minha Mãe’, de Luís Gama. Ele trata das saudades que Luís, mestiço, sente da mãe, presa. Ainda menino ele fora vendido pelo pai branco. Junto com escravos adultos, vai para o Rio de Janeiro, Lorena, em São Paulo, e a pé para Campinas, onde, em uma fazenda, é examinado como um animal. É rejeitado por vir de Salvador. Volta a Lorena onde aprende a ler e foge. Passa então a escrever e a “… ser gente. / Ser Gama. / Ter categoria!”.

Em “Kiauba”, “Outra História de Kiauba” e “Amaral”, três relatos, em prosa poética, conhecemos a história de Kiauba, que nunca foi escravo e que se “formou em homem e caçador” graças ao tio e mestre Ganga. Ele foi ainda contador de histórias e amigo. Outro sobrinho de Ganga juntou-se a eles no quilombo – Zumbi;  revoltado e vingativo, ignorou os conselhos do velho Kiauba e fez a guerra. Somente as crianças pequenas eram conduzidas por Kiauba, que as acalmava contando histórias. “… o quilombo era um refúgio onde os negros podiam se organizar e viver com alguma liberdade. (4)”. No terceiro destes contos, um escravo conta como sofreu com o irmão e os quilombolas de Palmares, de onde tentou fugir, porém, capturado, apanhou. É feito guarda, mas adormece, deixando o grupo desprotegido. Zumbi manda matá-lo. A execução é pior do que a sentença.

Os pobres Tigres carregam fezes e mijo da casa dos brancos para os rios! Ninguém quer saber deles. Eu achava que não ia durar muito. Valentim que era coisa de louco… Isaura considerava que era uma linda história. André dizia que era coisa do demônio. … Jorge sentia inveja do Mateus. Tadeu sentia inveja da sinhá Leninha. É desta forma que um escravo amigo de Mateus conta da convivência das crianças negras e brancas pequenas e de como isto gerou mais tarde no conto “Sinhá Leninha e o Negro Mateus”, ecoa o batuque e a dança dos escravos, quando estavam livres de trabalhar para os brancos, depois da missa, no domingo.

No mesmo formato dos anúncios de jornal da época, como “Urgente: Criança Doente”, que fala de um escravo sumido, são contadas algumas histórias curtas, como as de Heitor, Balbina e Inês.

Em “Sacramentos”, há narrativas de mortes terríveis e comportamentos insanos de escravos, assim como atitudes inesperadas de brancos. Há a história de um transexual mulher, de todo o sofrimento inicial até atingir a plenitude numa espécie de hermafroditismo. Sua substanciosa receita de galinha ao molho pardo é descrita no conto.

Cinco Negrinhos” acompanha as histórias de vida de cinco irmãos que são libertados em uma fazenda, em 15 de maio de 1888. Seguimos seus diferentes destinos – um deles volta para a África onde se dá muito bem — durante vários anos. Observa-se aqui como alguns negros mesmo depois de libertos ficam perdidos, desorientados: um dos irmãos retorna à fazenda onde haviam sido escravos.

O livro se inicia e termina com “Exu, o primeiro orixá sempre”, como afirma o próprio autor. Aparecem em diversos trechos dos 33 contos vocábulos africanos, assim como simpatias e rituais para atrair pessoas desejadas, alguns conhecidos até hoje.

O narrador está quase sempre em terceira pessoa, às vezes em primeira, e com certeza ele é negro ou negra. Portanto muda-se a perspectiva: não se trata mais de um branco falando de negros, mas de um igual relatando o acontecido.

Chama a atenção nestas histórias a multiplicidade de experiências humanas relatadas, do ponto de vista daqueles que, em geral, sofrem a ação, e a variedade de formas narrativas criadas, de modo poético, preciso e expressivo.

LGama_Luiz-Gama-mais-velho_CORTADA

Ao final da leitura, chega-se à conclusão de que Plínio Camillo atingiu plenamente seu objetivo. Fica evidente o sofrimento, a humilhação e a loucura, as paixões, os laços familiares e de amizade, os ódios e vinganças, e até mesmo o oportunismo de alguns negros, além das inevitáveis trocas entre negros e brancos, mostrando sujeitos no interior de uma cultura viva, rica e diferente, porém dominados por uma outra cultura que se considerava superior.

O Brasil, em razão de sua dimensão e da ausência de preocupação com a reprodução biológica dos negros, foi o maior importador de escravos das Américas. Estudos recentes estimam em quase 10 milhões o número de negros transferidos para o Novo Mundo, entre os séculos XV e XIX. Para o Brasil teriam vindo em torno de 3.650.000. … Diversos grupos étnicos ou “nações”, com culturas também distintas, foram trazidos para o Brasil. … Nas minas e lavouras de exportação, nestas últimas na época de safra, era comum o escravo trabalhar até 14 ou 16 horas, alimentando-se e vestindo-se mal e se expondo ao clima. Em geral amontoavam-se em senzalas impróprias para a habitação e careciam de cuidados médicos, sendo frequentemente vítimas de doenças que se tornavam endêmicas, como a tuberculose, disenteria, tifo, sífilis, verminose, malária. A média de vida útil, por isso, variava de sete a dez anos; (1)

Os negros deviam aprender a língua portuguesa e a religião católica, único bem moral que recebiam dos brancos. Logo que chegavam ao Brasil, os africanos eram batizados e recebiam nomes cristãos, sendo em geral perseguida a prática dos cultos africanos. … a presença do negro na sociedade escravista brasileira não pode ser medida apenas pela influência na criação de hábitos e pela participação no trabalho e na formação da cultura nacional, mas também por sua atuação quotidiana no processo penoso e difícil de conquista da liberdade e de recuperação de sua identidade.” (1)

Referências

(1) Para Uma História do Negro no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1988. 64. p.; il.; 20cm. Catálogo da exposição realizada na Biblioteca Nacional de 9 de maio a 30 de junho de 1988. ISBN 85-7017- 051-3 (broch.)

2) http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de- maio- Liberdade-hoje- e-seu- dia, acesso em: 22/05/2017. 

3) https://houaiss.uol.com.br/pub/apps/www/v3-0/html/index.htm#7, acessos em: 16/03/2017 e 28/03/2017.

(4) https://tab.uol.com.br/quilombos/, acesso em: 12/06/2017. 

Moira Martins de Andrade  – Cursou Português e Linguística na Faculdade de Letras da USP. Trabalhou na Fundacentro, Ministério do Trabalho e Emprego, como preparadora de publicações. Fez cursos de tradução e tradução literária, em especial de poesia. Fez oficina de crítica literária e de escrita de memória.

Originalmente publicado no Escritablog

 http://escritablog.blogspot.com.br/2017/07/o-negro-no-brasil-objeto-ou-sujeito.html

Anúncios

Por gentileza: comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s