Maria da Caridade

Maria da Caridade

Caída.

Dor nas costas.

Já enxergou muito.

Já fez muito.

Tem o olhar sereno que nada mais a assusta.

Tem o olhar desassossegado que nada mais a fará feliz.

Fugiu muito. Negou o seu senhor. Mudou de nome e só teve danação.

Amou muito. Venerou os filhos e os perdeu  para vida. Só teve desesperança.

Parou de fugir. Voltou. Pediu perdão e teve os açoites de lei.

Pouco depois: vendida.

Pelo outro dono foi posta para fazer a vida. Aliviar os homens. Fazer o que as brancas não querem: tem a bunda muito grande!!

Exasperação.

Bunda farta.

Deixavam os brancos quase em prantos.

Alguns se atreviam a pegar.

Ou balançar.

Ou beijar e até rezar.

Poucos se fartavam como pagavam.

Como deviam.

Como até seria bom.

Maria da Caridade nada dizia.

Até que um francês falou de amor, flor e pudor.

Léopold a resgatou, fez valer a liberdade e lhe deu um sobrenome: A negra ficou feliz.

Ela adorou a si naquele estado e ao marido.

Idolatrou, porém em uma noite de sexta foi morto. Cinco facadas nas costas!

Parentes dele, de longe, vieram e só não tiraram as lembranças, boas e ruins

Na verdade: foi a mando de Caridade que o Léopold foi morto.

Ela não gosta de pensar nisto, mas errou!!

Muito!

Por um instante, Maria da Caridade e outras, com certeza também Marias, se encararam.

Ao mesmo tempo.

No mesmo fundo de olho. 

Festa do Espírito Santo.

São Paulo.

Gente para cima e para baixo.

Fazendo a roda.

Olhando. Barulho

A maior aglomeração era para a Corrida dos Touros.

Urravam quando o bichão pegava um mais lerdo.

Torciam pelo animal.

Por um momento, Maria da Caridade e as outras ,constataram que eram negras. Qualquer outra coisa pareceu não as interessar. 

Ali no Largo dos Curros, visitas dos loucos, ambulantes e até alguns pregadores.

Alguns divertiam.

Outros cantavam.

O resto apenas via o tempo passar.

Gente para baixo e para cima.

Por um segundo, Maria da Caridade pensou em chegar perto e conversar, contar da vida, ouvir as trilhas, mas desistiu: vergonha. 

Maria da Caridade e as outras, talvez Marias, foram cada uma para o seu lado e nunca mais se viram.

Leopold não estava querendo deixá-la.

Não estava desejando abandoná-la.

Nem vender.

A negra entendeu mal. Ouviu com o medo.

Escutou como uma escrava.

Ela não viu o mar prometido

Maria da Caridade.

Decrépita

Carcomida

Dor na alma.

Já fez muito.

Já se arrependeu muito mais.

Tem o olhar ameno que nada mais a abala.

Tem o olhar alarmado que nada mais a fará radiante.

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3 comentários sobre “Maria da Caridade

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