Ogun

Ogun2

 

Luiz estava cansando da vida.

Surrado de ser capitão-do-mato.

Carcomido.

Tendo momentos até que sentia pena quando tinha que degolar um preto safado!

Ele sabia de tudo: como o negro tentava se embrenhar no mato ou se misturar com os da cidade. Não querer falar quem era o seu dono.

Tudo isto era fácil para o Luiz. Era da sua lida.

Um risco de faca na sola do pé.

Um cutucão no céu da boca.

Um bambu finininho na orelha, fazia o criolo cantar feito galo.

Madeira nos dentes ou nas unhas, nagó conta até onde está a mãe.

Preta com a barriga cheia de água fica mansinha como uma cascavel dormente.

 

Nada mais fazia ele perder o sono. Ou a fome. Ou a vontade de ver uma bunduda implorando pela vida.

Trazia todos de volta  e não perdeu nenhum, dizia a sua lenda.

Mas o boçal chorando estava talhando o fígado.

Diziam que era feiticeiro. Que tinha feito bruxaria …

 

Luiz estava com aquela vontade de dormir e acordar com tudo resolvido. Ou então tirar folga de si mesmo. Estava exaurido. Aborrecido. Estéril.

 

Dois dias de caça.

O mandigueiro foi pego enfiado em um buraco. Com o fiofo para a lua.

 

E agora: implora!

No medo, fala direito… 

Fala coisas de gente.

 

— Conta uma história então — pede o Luiz sem olhar para o freguês.

O benzedeiro excita. Baba.

— Conta em palavras de gente que eu num corto a sua garganta.

— Ogun foi chamado para guerrear. — o preto fujão fala com as palavras trêmulas

— Quem é Ogun?

— Um orixá poderoso , num sabe?

— Sei só coisas de Deus! Coisas de preto num sei não.

— O Senhor é preto também…

— Sou mas não preto como tu. Toca a história, ordinário.

— Foi chamado para limpar o mundo antes dos seus irmãos chegarem. Serão muitas lutas e sem tempo para encerrar. Talvez toda uma vida. Ou duas. Ou até todas. Irê, sua aldeia, fica triste, mas não desesperada ou desamparada. Não querem que vá, mas sabem de sua determinação. Sua natureza. Lamentam dançando na noite anterior à ida. No meio dos festejos, ele pede ao filho, que será o novo Oni, que quer dizer: guardião;e que todos os seus dediquem um dia em sua homenagem. Um dia que devem jejuar, não olhar para o horizonte e manter o silêncio. Devem orar para que tenha força, para lhe dar coragem. Para nunca se esquecerem dele. Aceita. Aceitam…

Luiz tira um fumo do bornal.

Pica.

Faz dois cigarros.

Acende para o boçal e lhe dá.

— Continue sem gaguejar, safado!

Tira também um vinho de Jurema. Mas não dá para o contador. Bebe em goles grandes.

— Òrun nasce, ele grita e vai …

— O que é Orun?

— Sol.

— Toca a tropa!

— Nos primeiros tempos ele se torna grande, muito maior do que o baobá, e guerreia contra todos os flagelos dos homens. Depois se torna sete e parte para todos os cantos, para cima por baixo e entre. Luta contra todas as naturezas. Abre caminhos. Sabendo o mal dos corações, se torna pequeno. Os inimigos dos irmãos caem.Também peleja contra a sua preguiça de lutar. Alguns amigos pelos inimigos se entregam. Abre caminhos para os irmãos. Pune, retalha e se consome. Alguns inimigos fogem enquanto ele sente falta de Oya, a sua mulher,  que foi se ter com Xangô. Dilui as trevas com suas ferramentas. Limpa e sujam. A luta também cansa.

— Cansa sim — Luiz pensa em se aquietar. Fazer outras coisas. Ter filhos. Ter sossego. Dormir com os dois olhos fechados. — Segue a trilha. Meu velho

— Um dia pela saudade cai. Quer ir para poder voltar. Quer rever, quer dançar com os seus. Volta. Ogun vem mais magro. Quer estar em Iré. Quer estar em sua terra. Chegando à primeira cabana pede água. Ninguém o atende. Entra e encontra todos, a família, sentada, olhando para o chão. Pede comida. Nada. Imagina que por estar sujo. No riacho se purifica. Na próxima cabana encontra a mesma mudez. Chega na aldeia. Homens, crianças e mulheres andam devagar e cabisbaixos. Não o reconhecem! Acredita que não o querem ali. Esqueceram de seu rei! Lutou em vão pelo seu povo! A ira sai. Sua fúria dá força aos seus braços. Faz de sua espada, raios, trovões e ventos. Todos os ingratos morrem. Somem. Sem falarem nada. Sem gemerem. Na mata, cessa o desejo. Dorme. Dia seguinte encontra os seus filhos. Não estão alegres em vê-lo. Contam que não puderam defender a aldeia no em dia que cumpriam o desejo de Ogun. Ogun grita. Sua ira vem sem pedir. Vem com o remorso. Vem contra ele. No segundo grito enfia sua espada no chão que se abre. Ogun entra e some.

Luiz chora. Vê o seu final. Vê que daquela lida não vai sair.

Chora de gritar.

Grita chorando e o boçal sai correndo.

Luiz o pega fácil.

Bate.

Soca, enxuga as lágrimas e corta a garganta do ingrato.

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