Maria da Esperança

Maria da Esperança

Por um instante, Maria da Esperança, Maria da Fé e Maria da Caridade, se observaram.

Enfeites. Bonitas do jeito de cada uma.

Festa do Espírito Santo.

Gente para baixo e para cima

Tentando se enamorar.

Cobiçando.

A maior aglomeração era para a Corrida dos Touros.

Gritavam quando atestavam que um dos brutos estava excitado. Babava

Partes firmes.

Membros latejantes.

Pronto para cobrir. Homem ou bovino.

Torciam pelo animal.

Por um momento, Maria da Esperança, Maria da Fé e Maria da Caridade, certificaram que até eram um pouco parecidas, nas saias, nos gestos e nas mulheres feitas que também eram.

Ali no Largo dos Curros, alguns loucos andavam, vendedores, desqualificados perambularam

Alguns tinham sonhos.

Outros eram pesadelos

O resto nem pensava nisto, queriam apreciam o tempo.

Por um segundo, Maria da Esperança, Maria da Fé e Maria da Caridade, acreditaram que poderia contar com as outras. Ter um apoio, ter um conselho, serem protegidas, mas abandonaram: recatadas.

Maria da Esperança, Maria da Fé e Maria da Caridade, foram cada uma para o seu lado e nunca mais se viram.

Maria da Esperança

 

— Sou uma obirim kekerê — disse João, com seis anos, para o irmão mais velho antes de dormirem.

Este, pela manhã, assustado contou para a mãe.

Ela, muito triste, deu uma sova que descadeirou o moleque.

— Você é menino e será um homem! Nunca uma mulher, viu?! — disse quase arrancando a orelha do menino para arrematar a surra.

 

Este prometeu para si mesmo que nunca mais iria falar com o irmão.

Não cumpriu.

No dia seguinte estavam falando de rios, frutas e como os brancos são diferentes. Bonitos!

Um tio, irmão do fugido pai, também deu outra coça, para aprender a ser macho. Tirar as mãos das ancas.

Quando pequeno, não fazia tanta falta. Entrava na dispensa e com as toalhas fazia de vestidos, turbantes e se imaginava cheio de colares.

Sim, era preto como os outros negrinhos. Não era branco. Queria ser …

Sim, tinha que abaixar a cabeça e tratar todos com respeito e não era como os outros. Queria ter …

 

Resolveu guarda-se só para si.

Mais aquilo fervia muito. Glorioso São Sebastião, rogai por nós! Sim se encantou com a história de São Sebastião. Virou devoto…

 

Sobre seu ser.

Achava. Imaginava.

Meditava. Pensava.

Ponderava. Rezava … e o desejo se fez na carne.

 

A cintura de João afinava conforme crescia.

Com quinze, peitos de menina nova brotaram.

Voz aveludada rouca esguiçou.

Foi o portuguesinho Rubens que descobriu que João tinha o maior pau da vila.

— Um jumento!! Juro!! Quase não coube na boca!!!

 

Depois de ser aprovado, na carne, com o negro Tomás, João acordou Maria da Esperança.

Não adiantava.

Não tinha jeito!

Era e era.

Maria da Esperança estava feliz.

Mesmo querendo ele não se reconhecia como João.

Não era e não era mesmo!

Nunca mais!

Seus ouvidos nunca atendiam.

A mãe, descorçoada, foi a primeira que o chamou de Maria.

Dia brilhou.

Irmãos.

E o tio, irmão do fugido pai, se enamorou. Jurou felicidade, casa e fidelidade.

 

Maria da Esperança não quis muito.

Só um pouco.

Só as pontas.

Desiludido o tio se enforcou na sua frente.

Dali saiu cantando.

Trabalhava sorrindo.

Vivia trinando

Ria sabendo o motivo: estava feliz

Do campo, pela delicadeza, foi para a sala.

Da sala, pela suavidade, foi para o quarto: A melhor mucama da sinhazinha Inês.

Maria da Esperança foi confiável. Incentivou quando a menina se encontrava apaixonada pelo caixeiro viajante Samir. Ficou vigiando a estrada quando a sinhazinha se entregou para o amor.

Foi sempre sincera. Fez uma deliciosa galinha ao molho pardo para o caixeiro e mandou entregar. Ingredientes: 1 frango inteiro, 300 g de alho, 4 cebolas, 2 colheres de sal, pimenta, folha de louro, 50 g de orégano, um litro de óleo, um copo de sangue e meio copo de beladona miúda. Ele morreu achando que o mundo ia acabar em lama, nada desconfiando que sua traição foi descoberta pela Maria da Esperança. Sinhazinha Inês jurava que tinha sido castigada por Deus.

Era fiel. Nunca admitiu que alguém falasse mal dos brancos. Brigou com o irmão. Até contou para o sinhô Ferreira quando uns negros resolveram fugir.

Seguidora. Veio para São Paulo, junto com a sinhazinha, quando esta se casou um advogado.

Foi cúmplice e leal. Quando a sinhazinha implorou que ela a possuísse, pois o marido vivia enfiado em reuniões. Maria da Esperança nem pestanejou.

Copulou com força e carinho.

Sinhazinha Inês blasfemou: senhordiantedetimecoloconestemomentoparateagradecerpelaminhavidateagradeçoporquedeiteiedormiempazetumesustentastesteagradeçopelavidadecadaumqueestaaomeuladoteagradeçoporsersuafilhaeporsaberquetucuidasdemim

Acasalou com caridade e vigor.

Sinhazinha Inês sussurrou: obrigadosenhorporqueseiqueestáscomigonaalegriamasprincipalmenteporquetumesustentasnahoradaangustiaedodesespero.

Aliviou-a com fé e afinco.

Sinhazinha Inês uivou: queeuvenhasempreacumpriroteuquererqueeupossaouvirtuadocevozmeensinandoocaminhoqueeudevaandarequeeunãomedesvienemparaaesquerdanemparadireitamaisqueeusigasempreretoemsuadireção.

Sinhazinha Inês se apaixonou.

Foi arrebatada.

Queria que fugissem.

Casassem

Fossem felizes.

Queria sempre mais!

Ansiava que Maria da Esperança fosse seu homem. Varão e companheiro.

 

Maria da Esperança não quis e Inês se enforcou na sua frente.

Dali saiu destoando.

Transformada.

Infeliz.

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