É fácil quebrar uma vara, mas é difícil quebrar um feixe de varas.

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Jesuíno está muito cansando.

Cansado, triste e desalentado.

Esmorecido, aborrecido e com saudade de Feliciana.

 

Dias como o que foi ontem o deixam um pouco menos abatido.

Até provocam a pensar o motivo.

A razão para tudo o que faz?

 

Para variar, ele escuta outra vez a voz da mãe declamando:

 

O escravo então foi deitar-se,

Pois tinha de levantar-se

Bem antes do sol nascer,

E se tardasse, coitado,

Teria de ser surrado,

Pois bastava escravo ser.

 

E a cativa desgraçada

Deita seu filho, calada,

E põe-se triste a beijá-lo,

Talvez temendo que o dono

Não viesse, em meio do sono,

De seus braços arrancá-lo!

 

Recordava a mãe recontando como era a vida de antes, como se ele não lembrasse:

Os outros sendo estraçalhados por cães,

Ela ficando cega de um olho graças a um maldito galho de árvore.

O cheiro do medo.

Aroma de sangue.

 

Mas tem que continuar…

Por dever.

Por amor.

Por aversão a escravidão.

 

Deverão andar mais a noite toda para chegarem no seguro Jabaquara.

 

Descativar estes não foi difícil.

Uma pedrada no feitor, ameaça com os infernos e ele contou tudo.

 

Apavorar com mandigas os que não quiseram fugir, também. Obrigação

 

E levar a maioria. Velhos, crianças e mulheres, agora compromisso

 

Ouviu novamente o que o padrinho sempre falou e o que Antônio Bento sempre repete como se fosse dele: “É fácil quebrar uma vara, mas é difícil quebrar um feixe de varas”.

 

Sejam fortes e corajosos. Não tenham medo nem fiquem apavorados por causa delas, pois o Senhor, o seu Deus, vai com vocês; nunca os deixará, nunca os abandonará — Disse em voz alta e continuou andando. Para segurança de todos a noite teria que ser a trilha.

 

Jesuíno podia ir de olhos fechado até o quilombo.

As terras eram do Quintino. Mas foi Feliciana que descobriu um caminho seguro e Jesuíno quem garante uma rápida chegada

 

O despertar tinha sido no enterro do Luís Gama no cemitério da Consolação. Até então fazia seus resgastes sozinho, sem ter para onde levar. Sem saber quem eram seus pares, além dos não-mais-escravos.

 

“Quando me vejo rodeado de tantos infelizes que, com lágrimas, imploram o meu fraco apoio e não acho nas leis deste desgraçado país um meio de socorrê-los, a minha alma se despedaça de aflição e tenho ímpetos de, largando a pena e empunhando a espada, bradar: ‘Liberdade ou morte!’“.

 

Liberdade, concordou Jesuíno.

Morte, não lamentou Feliciana pegando em sua mão.

 

— Quem é você?

 

Na primeira chance contou para o Antônio Bento o que já muito fazia.

Pouco tempo a rota foi praticada.

Do cativeiro para o primeira liberdade. Dali para o Ceará livre.

Verdade que poucos chegavam. Ficavam soltos pelo caminhos. Ou com parentes ou com novas famílias. Mas sempre livres.

 

Estejam vigilantes, mantenham-se firmes na fé, sejam homens de coragem, sejam fortes.

 

Um não entende o motivo, outro sim. Todos andam. Sabem que muito ainda tem que caminhar.

A saudade de Feliciana bateu!

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