Maria da Fé

Maria da Fé

Para a negrada, a menina da Fé brincava muito sozinha.

Balançava.

Gritava sempre só.

Para Da Fé, Cosme, Yori e Damião eram os melhores companheiros.

Cosme gostava de frutas, nadar e rir quando da Fé empurrava os outros.

Yori chorava à toa, pegava as frutas mais altas e gargalhava quando da Fé respondia para os mais velhos.

Damião era tranqüilo, falava baixinho e sorria sempre que da Fé cuspia na comida.

Dafé cresceu, os erês não. Até que um dia não voltaram mais.

Maria chorou.

E foi trabalhar na horta com o pai.

Pai sério, fechado, de poucas palavras. Sabia de coisas de terra , de plantas e de bichos.

Forte, bonito, atento e de olhar severo.

Ele somente dizia que um dia iria levá-la para ver o mar.

Mas um outro dia ele sumiu.

Dafé ficou a manhã toda na horta sozinha.

Para não assustar, a mãe disse que ele fugiu.

Dafé chorou.

Queria saber o motivo pelo qual o pai, forte, bonito, atento e de olhar severo, não tinha se despedido. Será que foi ver o mar sozinho?

***

Maria da Fé voltou no dia seguinte para horta, sem ânimo, sem vontade.

Encontrou o pai, forte, bonito, atento e de olhar severo, esperando por ela.

— Num vou mais mexer com as coisas, só você mexe. Num vou sair do seu lado. Vamos ver o mar juntos!!

Daquele dia o pai severo e de magras palavras contava histórias de mar, céu, santos e orixás só para Maria da Fé.

Acompanhava a filha para todos os lados.

Avisava dos perigo de cobras e de gente.

De tempo ruim ou animal que iria parir.

De notícia boa e aviso de morte.

***

Quando alguém chegava perto de Dafé, ele ia perto do freguês, cheirava, cutucava, olhava dentro do coração e decretava se era boa pessoa, se estava doente, se tinha maldade nas mãos. Ou querências no dedos. Decretava:

— Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão. — conforme Dafé repetia para pessoa o que o seu pai havia lhe dito, tinha gente que ria, outros corriam e todos se espantavam.

Tempos depois, o pai de Dafé, falou para a filha sair dali. Cruzar a mata. Ir para uma cidade maior.

Dafé pensou em não obedecer, mas o pai cada dia mais forte, mais bonito, mais atento e agora com um olhar carinhoso, falou que era a sina dela.

— Corro de burro quando foge! — e ela obedeceu prontamente.

No caminho ele mostrou que arnica curtida em pinga serve para desinchar as juntas, que com cinco folhas de bálsamo as quenturas das tripas vai embora, capim cidreira acalma os bichos ruim da cabeça e chá de sene expulsa as gororobas de dentro da gente.

***

Dafé chegou em São Paulo. Pai avisou que ela era fugida então tinha que andar direito, sem dar na vista.

Maria fez. Cabeça sempre baixa, obedecendo todos os brancos que encontrava.

Perto da praça dos Enforcados, conseguiu um barraco. Pegou uma cadeira e ficou na frente dali, vendo o tempo.

Passou um homem mulato com a boca nervosa. O pai viu o homem, cheirou e orientou a filha. Dafé gritou e mandou ele tomar um chá de pitanga com ameixa amarela que a pressão ia baixar. O homem estranhou mas, sabe-se-lá, obedeceu e dias depois veio agradecer.

Tempo depois, Dafé soube pelo pai que uma vizinha tinha perdido um filhinho por aqueles dias. Maria correu e fez um chá de cânfora. Ofereceu para a mulher que bebeu e chorou no ombro da negra. Chorou até cansar. Chorou até aliviar. Não esqueceu, mas se conformou um pouco.

Outra vez, um menino bonito, que Dafé adorava olhar, estava meio borocoxo. O pai de Dafé orientou que ela desse um chá de sálvia para o moleque. Dois goles depois e o bonito menino estava todo pimpão pelas ruas.

***

Dafé teve alguns namorados.

Uns o pai não deixou que ficasse muito tempo, eram de braço-curto, mandou correr logo.

Outros não prestavam mesmo!!

Tempo passou. Maria da Fé envelheceu e o pai não. Sempre forte, bonito, atento e de olhar mais carinhoso ainda.

Ela alternava, em momento que dava alguma bronca a chamava de filhinha.

Quando contava um ensinamento a chamava de minha neguinha.

Quando ela ia cometer alguma traquinagem que ele sabia que ia dar com os burros-n’água, ela a chamava de minha velha.

***

Todo dia vinha alguém pedir conselhos.

Orientação.

Até benção.

Maria da Fé se divertia, pois apenas repetia o que o pai dizia.

Todos a tratavam com consideração.

Chamavam de Mãe Dafé.

Não teve filhos. Somente afilhados.

Dando a graça dela escolher o nome do rebento, sendo machinho, ou era Cosme, ou Damião ou o nome do pai.

Sendo menina sempre o primeiro nome era Maria. Da Temperança, Da Generosidade, Da Humildade e Da Castidade

Para todos Maria da Fé ria à toa.

De tola e sábia.

***

— Quem tem boca vaia Roma — disse o pai quando Maria da Fé, bem velhinha, fechou os olhos.

Fechou e logo abriu.

Abriu e se viu menina. Nova, forte e bonita.

Ela e o pai foram passear por cima do mar.

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6 comentários sobre “Maria da Fé

  1. Fiquei buscando na memória, umas negras maravilhosas que conheci, assim como Dafé… Tive sorte, a vida me deu negras avós, negras madrinhas, negras contadoras de histórias. Sabedoria e generosidade me legaram…

  2. Muito bom este seu conto,eu sempre conto com o encanto destas três Marias,Maria da Fé sempre me diz algo de acalanto ,de aconchego.de descanso.Moro nela!

Por gentileza: comente!

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