A ÚLTIMA HISTÓRIA DE KIAUBA

 Kibungo

 

As leis não eram escritas.

Os mandamentos não ficavam marcados.

Homens, mulheres e crianças sabiam de cor.

Pelas histórias de Kiauba.

 

Naquele momento, era a sua vez de contar.

Todos os meninos e meninas que ouviram alegres as suas histórias sentaram ao seu redor. Pediram a última.

Kiauba contou:

Das nossas terras, muito além da água, veio atrás dos homens o Chibungo.

Diziam que era um homem muito grande, maior que qualquer árvore daqui ou de lá. Tinha uma cabeça enorme, com olhos negros-noite e boca cor de sangue. Tinha dentes grandes e amarelos.

O corpo peludo mais que o macaco e de cor branca como as nuvens. Também com outra boca, mais vermelha e maior no meio das costas.

Quem ouviu afirma que a voz dele doía nos ouvidos e fazia o coração parar.

Gostava de comer crianças novinhas e outros filhotes de bicho.

 

Kiauba pulou.

Quando a gente falava a línguas dos bichos, tinha uma cachorra que, toda vez que paria, o Chibungo chegava e comia seus rebentos. Então, para poder livrar os novos filhos do monstro, enfiou eles em um buraco fundo e ficou sentada em cima. Para não ser notada colocou uma saia cor do sol e um colar brilhante no pescoço.

Todos riram.

Chegando e vendo a cachorra assim vestida, o Chibungo a desconheceu e teve de chegar bem perto.

Todos ficaram apreensivos.

Então, passando o cágado, ele perguntou:

Otavi, otavi, longozoé

Ilá ponô, éfan /

I vê ponderémum,

Hotô rô, men i cós /

Assenta ni ananá ogan

Né só arorô alê nuxa?

— Não sei, Chibungo — respondeu o cágado, que logo foi embora olhando apreensivo para a cachorra vestida de saia e com um colar no pescoço.

Passou a raposa.

Chibungo fez a mesma pergunta, e a raposa respondeu que não sabia. Também saiu correndo, aflita, não entendendo como a saia e o colar no pescoço da cachorra tinham enganado o Chibungo.

Passou, então, o coelho, e o Chibungo fez-lhe ainda a pergunta.

Foi quando este disse:

— Ora, Chibungo, você não conhece a cachorra vestida de saia, com o colar no pescoço?

O Chibungo voou por cima da cachorra, deu um tapa nela, que foi longe, e comeu os filhotes com duas bocadas.

Com raiva por ter sido enganado, correu atrás da cachorra para também devorá-la.

A cachorra, inundada de ódio, correu atrás do coelho para vingar seus filhotes.

Nessa carreira, entraram em uma aldeia. 

Os homens dali se assustaram e alguém propôs-se ajuntarem: Fizeram e mataram o Chibungo.

A cachorra matou o coelho por vingança.

 

Todos apreciaram.

Depois choraram e deram um vinho de gosto amargo para Kiauba.

Ele sorveu olhando para os seus.

Sem rancor.

Sem raiva.

Sem tristeza e até com muito alívio: aquilo tudo iria acabar.

Na primeira dor ele pulou no rio

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