A penúltima história de Kiauba

Guerreiro

Era tempo de lutas longe.

O novo rei novo, junto com os novos, que com orgulho levavam as lanças. iam nas fazendas e querendo ou não pegavam a negrada escrava e trazia para as vilas. Diziam que as libertava.

 

Alguns iam para a vila,  Macaco.

Poucos na Andalaquituche

Quase ninguém em Subupira e os mais novos em Amaro.

 

Ali, desejando ou não, viravam irmãos e trabalhavam para o bem de todos.

 

No cair da tarde, as novas crianças, ainda de olhos medrosos da escravidão, eram levadas pelas outras, já sem medo ou até com novos medos, para ouvir as histórias de Kiauaba.

Como uma lenda rezava: as terras secaram. Nada mais brotava ou nascia ou prosperava.

 Todas as lutas foram perdidas.

Nos dias, as mulheres e os pequenos clamavam de fome e sede.

Nas noites, até os mais fortes, clamavam pela escassez, aridez e desesperança.

 Somente N’Goma, o mais novo dos homens, consegue se manter em pé.

Ajuda todos.

Divide as suas prendas.

Caça a água.

Acoça os alimentos.

Ele protegido de Logunedé!

 Quando os mais antigos aperceberam: a parte deles tem que ser feita

Buruku, o mais de todos, procura uma madeira rejeitada. Esculpe um lança e a leva para o centro da vila e chama pelo N’Goma.

 É ordenado que com força a atire a lança contra o sol.

Faz.

Vai longe

Some

 

Exigem que a procure e quando a encontrar, erga um novo local, nova vila, criar o Efegô.

 

Silêncio.

Repete em tom de suplica que não quer ir. Que precisa ficar ali. Que os seus necessitam de sua ajuda.

 

Silêncio.

Estabelecem o que N’Goma tem que fazer.

Obedece.

 

Acanhado, pega o seu arco, flechas, um leque e um espelho.

Veste suas sandálias e vai.

Sem olhar para trás.

Sem chorar.

 

***

 

Por muito tempo anda em busca da lança.

Conhece outras tribos.

Outras línguas.

Em alguns lugares é tratado bem, como o costume.

Em outras não, como o costume também.

Com todos aprende a ouvir.

Com muitos aprende a lutar.

Com alguns aprende a perder.

Com outros a comemorar.

Com poucos apreende a língua dos animais.

Com outrem, os poderes das plantas.

Sozinho sente saudade.

 

Na beira de um riacho.

Tempo para apreciar o tempo.

Ouvir todos os respiros. Amainar a sede.

 

Aparece um pequeno homem coxo e cego.

Implora por ajuda. Cai. Quase desfalece

 

N’Goma o ajeita à sombra.

Pesca na primeira flechada o um grande peixe.

Assa em um fogo feito fácil.

Oferece e o coxo come voracidade. Sem agradecer e dorme com a comida na mão.

 

N’Goma cuida do sono do coxo cego.

Horas depois, o homem acorda.

Apresenta-se como Wamukota e diz que irá seguir a sua trilha. Cumprir a suas sina

N’Goma pergunta se pode ajudá-lo.

Wamukota agradece e dá a N’Goma uma pequena bolsa, patuá, que diz ter ali várias ervas que curam qualquer doença.

 

O cego afirma que sabe tudo sobre ele e anuncia que nos sonhos viu os netos dos netos dos netos dele e que tem uma profecia: Prenuncia que dali muito tempo uma grande porta aparecerá ao leste da lança verde e por ela deverá trazer o terceiro filho com o seu primeiro filho, eles dois ajudaram o povo a vencer os de asas.

 

N’Goma fica intrigado até ele percebe que cego desapareceu.

 

Continua a sua procura.

Sempre aprendendo algo.

Sempre conhecendo alguém.

Alguma nova planta que logo põe um pouco em sua bolsa.

 

Muito tempo de procura.

Entrando em uma grande clareira, N’Goma vê um homem de pele alva, cabelos claros sendo atacado por enormes ratazanas. Ele está atado em uma árvore por um fio fino e brilhante, suas costas estão sangrando e as ratazanas estão devorando o seu fígado.

 

Com cautela, N’Goma se aproxima e pergunta, na língua dos bichos, por que elas estão devorando o homem, as ratazanas não respondem.

 

Pergunta outra vez, até que a maior diz que é o destino delas fazer aquilo.

N’Goma diz que o destino de todos é cuidar de todos e pedem que a ratazanas cessem aquela tortura ou terá que matá-las.

Elas se recusam e N’Goma ataca-as.

Mata todas.

 

Terminada a luta, desamarra o de pele alva e trata os seus ferimentos com suas plantas.

Os ferimentos do abdômen cicatrizam e desaparecem.

Os das costas param de sangrar, formando dois grandes caroços.

O homem dorme em alguns minutos.

N’Goma fica por ali.

 

Tempos depois, o de pela alva acorda, ainda fraco.

Come.

Agradece a sua salvação mas diz que nada adianta, pois ser devorado pelas ratazanas é a sua maldição. Diz se chamar Beng e é um decaído, que junto com seus companheiros revoltaram contra o seu líder, Germant. Todos foram punidos, perdendo a posição e os poderes de antes, mas Beng é que sofre a maior das punições: viver eternamente sendo devorados pelas ratazanas. Diz que o motivo disto é que antes de se revoltarem, ele pegou um objeto de muita valia para o líder. Apesar de terem perdido a guerra e ter sido preso, Beng recusou devolver o objeto. Fugiu, porém recebeu a desgraça. Sabe que o sofrimento cessará quando ele devolver o que foi roubado e afirma, com convicção, que isto nunca fará.

 

Tenta se levantar.

 

Diz que terá que caminhar um pouco antes.

Brincar com as pernas. Respirar

Assegura que tem que estar melhor pois novamente será atacado por outras ratazanas.

 

N’Goma, penalizado, se dispõe a ajudá-lo no que precisar.

Os olhos de Beng brilham e pede que N’Goma renove os votos de disposição.

Ele o faz.

Beng solicita que N’Goma guarde um objeto e depois o degole e enterre seu corpo o mais fundo que puder.

 

N’Goma se nega.

Beng insiste.

Não.

Implora. Chora.

Ratazanas aparecem.

 

N’Goma arrepende-se de ter oferecido ajuda, acata.

Beng pede que N’Goma o decapite, separe do corpo todos os seus membros, queimando-os em seguida e fazendo um patuá com os seus olhos: proteção contra os de Asas Grandes Brancas e Negras.

 

Beng passa mal.

Vomita e cai de sua boca uma sacola de couro.

Em silencio oferece a N’Goma.

 

N’Goma mata Beng, queima e aprecia sem entender o fogo consumir.

 

Vem um pensamento: Os Kibundos são ruins e sanguinários, não tem e nem terão pena de ninguém, mas a sua amada retornará com alguém ido e vencerão, porém não será como antes…

 

Cava.

Enterra e parte para trilhar novas terras.

 

***

 

Em um pequeno oásis em um deserto, encontra uma negra. Alta. Forte. Bela. Vigorosa: Líbia.

 

Ela o desafia para uma luta

N’Goma ri e recusa. Não luta contra mulheres.

Líbia salta e lhe dá um forte soco no rosto.

 

N’Goma com o rosto dolorido, levanta-se e diz que apesar do desrespeito não iria lutar.

Líbia chama-o de covarde e ladrão

N’Goma pede para que ela não repita.

Ele chama-o de covarde em diversas línguas dos homens e dos bichos.

 

N’Goma possuído por uma ira mortal, ataca Líbia.

Lutam por sete dias e sete noites.

Nenhum dos dois quer perder.

Nenhum dos dois pode ganhar.

 

N’Goma, exausto, propôs uma trégua e ela aceita.

 

Líbia conta que é filha de um orixá guerreiro com uma mulher vinda de longe. Seu pai deixou-a cuidando da aldeia e homens de além rio vieram e levaram todos. Ela pensou que N’Goma fosse um deles.

 

Ele pede desculpas.

Ela aceita se desculpa também.

 

N’Goma busca um alimento, cozinham, comem juntos, dormem e quando acordam sentem que nunca mais poderão viver longe um do outro.

 

N’Goma conta toda a sua vida, fala das profecias, dos patuás e da busca da lança.

Líbia afirma que o acompanhará. Deixa outro irmão dela cuidando da aldeia.

 

***

 

Caminhara muito juntos

Enfrentaram tempos alegres, difíceis e insossos.

Atravessam rios, monte e mares.

 

Em um grande planalto, em uma nova terra, N’Goma encontra a lança enterrada em uma árvore.

O que espantou os dois é que a lança ainda estava verde e que a árvore pegava fogo.

N’Goma arrancou a lança.

Em baixo da árvore, enterraram, o objeto dado por Beng.

Viram a árvore secar rapidamente.

Juntos constroem uma casa de barro e sapé.

Surge Efegô.

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