Lógunède ou história para Vicentinho acordar

 Logun

 

Vicentinho não gostava de brincar com os irmãos. Preferia ficar olhando as negras na cozinha.

Tinha a voz fina.

Era delicado.

Branco leite.

Cabelos de ouro.

Olhos manto de Nossa Senhora.

Como a irmã Maria Eugênia gostava de subir nas árvores, porém ficava emocionando com a paisagem. Mas nem olhava para os cavalinhos de pau.

Não montava os negrinhos como o irmão Fabrício.

Nem gostava de ir ver as plantações como o irmão Cláudio Antônio

Preferia ficar olhando as negras na cozinha.

Com a Chiquinha, ou mãe Chiquinha como ele em segredo a chamava.

Passava os dias só.

Com as bonecas de palha que a escrava fazia.

Ou pensando na morte da bezerra.

Dormir só no colo da nega. No seu regaço.  Porém com a mesma história. A mesma de sempre: “No fundo tem o silêncio. A calmaria das águas ajuda a não pensar. Ficar longe. Muito arêrê. Muita gritaria. Muitas brigas e nenhuma por ele. Ilá!! Dentro o banzé ficou longe. O fundo do rio está perto do silêncio. Caça melhor que muitos. Porém quem conquista o melhor ekó? Oxóssi! É dá água mais que todos. Mas os ejás saúdam somente Oxun. Nunca erra um alvo. Mas vacila perto do seu pai. Entende dos rios e dos bichos d’águas, mas é um nada perto de sua mãe. Conhece sobre os caminhos, porém bem menos que ele Adivinha todas as trilhas da alma, mas ela é mais precisa. Chega primeiro e seu pai sempre já lá esteve. É belo, ativo, porém sua mãe é a odara. Nem para ele olham.”

O pequeno engole as palavras.

A negra antevê as tristezas do menino quando for grande.

Será homem mas não será.

Será sozinho.

Terá que se guardar.

Fazer escondido.

Sem ninguém. Com alguém

“ Pai? Mãe? O fundo a paz inunda. Do fundo veio a pureza. Limpa e fluida. Tempo sumido. Sentem sua falta. Mãe se desespera. Oxossi berra um grito que até chega em Efegô. Pai implora. Oxun está desesperada com nunca antes esteve. Filho?! Filho!? Clamam pelo maior. Olurum atende pois tinha outras obrigações para o menino”

 

A negra vê o prazer do menino no ouvir.

Percebe que ele sabe que o final será feliz.

Da história talvez.

Dele, nunca, com certeza.

“Olurum ergue Logunedé. Que agora pode ser fazer pequeno. Grande Menina. Menino. Gente. Filho. Pai caçador e mãe d’água agradecem.

Oxun e Oxóssi comemoram. Logunedé. ri de ser querido. Veio a alegria quando Olurum sussurrou em seu ouvido que é a melhor parte dos dois.”

… e Vicentinho ri

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