Jesuíno

Escrava e filho - 1884I

Outra lenda, dizia que ele, Jesuíno, já nasceu alto, forte, como um jequitibá-rosa, e com uma voz de trovão. Mas é tudo invencionice. Ele nem nasceu por aquelas bandas: Veio pequeno, mirrado no colo da mãe, não chegava nem aos dois anos.

Nas suas conversas, banhada com a cachaça quente, dizia lembrar de sentir um vento forte, os seios duros da mãe e os que acompanhavam ela serem estraçalhado pelos cães.

Sempre misturado com o bodun do medo e a fedentina da morte.

Fugiram de uma fazenda no sul de Minas.

A mulher sem companheiro andou muito.

Só ela e o filho. Andando pouco e no colo na maioria do tempo.

Só o filho e ela. Contando história de um outro lugar.

Comeram frutas do mato, saúvas e beberam água quase podre.

Comeu o que deu e que o melhor era para o pequeno filho, esperança de olhar forte.

E viram um pequeno ribeirão.

Riacho e uma cabana;

Choupana e um homem, que descascava um fumo agachado.

Nem branco e nem negro. Meio índio e meio peixe.

A mãe de Jesuíno ficou olhando ele de longe. Ele a ela também. A negra se arrastando, levantava o filho.

O meio-peixe se aproximava.

A mãe se arrastava.

— Seu afilhado! — apresentou a mãe antes de desmaiar.

Arruda para diminuir as dores da mãe.

Capim limão para as cólicas do menino.

Laranjeira para as febres.

Manjerona para os pesadelos do menino.

Chá de erva cidreira para ela acalmar antes de acasalar.

Gervão, para o pescador, se firmar.

Alfazema para o menino não incomodar.

Jesuíno ganhou um padrinho que o ensinou a pescar.

A fé não tem olho.” Jesuíno ouviu pela primeira vez quando viu a mãe grávida do padrinho. Quis chorar, gritar e fugir. Com chás e conversas acalmou e ficou esperando a Rosa nascer. E nasceu! Uma bugrinha linda com os lábios da mãe, as mãos do padrinho e as orelhas iguais a dele

Pensar.

“A justiça engrandece a nação, mas o pecado é uma vergonha para qualquer povo.” Quando o padrinho, na cidade lhe mostrou escravos adultos apanhando de crianças brancas. Depois o padrinho parou a surra, xingou os moleques e confortou os surrados.

Entender.

A paz vem de dentro de você mesmo. Não a procure à sua volta.” Quando o padrinho falava para outro pescador depois que descobriram que queriam desviar o rio.

Alcançar.

“A retidão será a faixa de seu peito, e a fidelidade o seu cinturão.” Depois do castigo por ter roubado laranjas de um pomar vizinho.

Estimar.

A paz vem de dentro de você mesmo. Não a procure à sua volta.” Quando o padrinho falava para outro pescador depois que descobriram que queriam desviar o rio.

Ser gente.

“A retidão será a faixa de seu peito, e a fidelidade o seu cinturão.” Depois do castigo por ter roubado laranjas de um pomar vizinho.

Ouvir.

“Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la.” Proposição que Jesuíno sempre levou nas suas caminhadas e resgate.

Gente homem de bem

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” À noite depois de fumar o seu pito

Firme.

É capaz quem pensa que é capaz.” Sempre quando achava que não conseguia fazer algo.

Benfeitor

Inútil dormir que a dor não passa”. Ouviu entre lágrimas, quando o seu padrinho pescador contou que o irmãozinho querido morreu afogado.

Alegre.

Nhen-nhen-nhen” quando o padrinho não queria mais falar.

Sábio.

Uma vida não questionada não merece ser vivida” quando Jesuíno, fugido de Campinas, pois tinha libertado um escravo que apanhava muito e se escondia nas barras da calça do padrinho.

Ser humano

Sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele.” Quando Jesuíno pediu para ser abençoado, iria sair de casa. Ver o mundo. Descobrir o que era a vida fora do rio. Soltou escravos, levou para longe. Lamentou a morte do amigo Luiz Gama, carregando o seu caixão.

Homem e filho.

 “… você é meu primogênito, minha força, o primeiro sinal do meu vigor, superior em honra, superior em poder.” Um pouco antes de morrer, agonizou por três dias: foi picado na faca e na traição pelo finado Agenor, morto depois pelo Tadeu, irmão por parte de mãe de Jesuíno.

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